{"id":1849,"date":"2025-08-19T10:43:06","date_gmt":"2025-08-19T13:43:06","guid":{"rendered":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1849"},"modified":"2025-08-19T10:43:06","modified_gmt":"2025-08-19T13:43:06","slug":"contratacao-direta-de-show-artistico-e-improbidade-administrativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1849","title":{"rendered":"Contrata\u00e7\u00e3o direta de show art\u00edstico e improbidade administrativa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 leg\u00edtima a condena\u00e7\u00e3o por improbidade administrativa na contrata\u00e7\u00e3o direta de show art\u00edstico, quando ausentes o dolo espec\u00edfico e a comprova\u00e7\u00e3o de dano efetivo ao er\u00e1rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>N\u00c3O<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A controv\u00e9rsia centra-se na an\u00e1lise da legalidade e da tipicidade da contrata\u00e7\u00e3o direta de artista consagrado, mediante inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o, nos termos do art. 25, inciso III, da Lei n. 8.666\/1993, \u00e0 luz da nova sistem\u00e1tica de responsabiliza\u00e7\u00e3o por improbidade administrativa introduzida pela Lei n. 14.230\/2021. A quest\u00e3o principal consiste em verificar se, ausentes o dolo espec\u00edfico e o dano efetivo ao er\u00e1rio, tal conduta pode subsumir-se \u00e0s hip\u00f3teses de improbidade administrativa previstas nos arts. 10 e 11 da Lei n. 8.429\/1992 (LIA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a altera\u00e7\u00e3o promovida pela Lei n. 14.230\/2021, consolidou-se no ordenamento jur\u00eddico a necessidade de <b>dolo espec\u00edfico<\/b> para a caracteriza\u00e7\u00e3o de qualquer ato \u00edmprobo, inclusive os previstos no art. 11 da LIA. Exige-se, conforme o \u00a7 1\u00ba desse dispositivo, que a conduta tenha sido praticada \u201ccom o fim de obter proveito ou benef\u00edcio indevido para si ou para outra pessoa ou entidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere aos atos descritos no art. 10 da LIA, al\u00e9m do elemento subjetivo (dolo), passou-se a exigir <b>prova concreta da les\u00e3o ao er\u00e1rio<\/b>, afastando-se de modo categ\u00f3rico a possibilidade de presumir-se o dano, conforme se dava sob o conceito doutrin\u00e1rio e jurisprudencial do &#8220;dano in re ipsa&#8221;. Assim, a responsabiliza\u00e7\u00e3o depende da demonstra\u00e7\u00e3o de <b>perda patrimonial efetiva<\/b>, <b>desvio<\/b>, <b>apropria\u00e7\u00e3o<\/b>, <b>malbaratamento<\/b> ou <b>dilapida\u00e7\u00e3o<\/b> dos recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hip\u00f3tese examinada pelo STJ, a contrata\u00e7\u00e3o do show art\u00edstico ocorreu com base na inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o prevista no art. 25, III, da Lei n. 8.666\/1993, o que, em tese, \u00e9 juridicamente admiss\u00edvel, desde que o contratado seja o artista ou seu empres\u00e1rio exclusivo, nos termos da jurisprud\u00eancia consolidada do STJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, a condena\u00e7\u00e3o dos agentes p\u00fablicos ocorreu unicamente porque a empresa contratada para montar a estrutura do evento n\u00e3o detinha a exclusividade da representa\u00e7\u00e3o do cantor, mas atuou como intermedi\u00e1ria entre a administra\u00e7\u00e3o e o real representante do artista. Ausente, no entanto, qualquer ind\u00edcio ou demonstra\u00e7\u00e3o de que os r\u00e9us tenham agido com o intuito de obten\u00e7\u00e3o de vantagem indevida ou de que tenham se beneficiado da contrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, inexiste nos autos comprova\u00e7\u00e3o de <b>superfaturamento<\/b> ou de que o valor pago tenha sido superior ao praticado no mercado para artistas da mesma notoriedade. A tentativa de relegar a apura\u00e7\u00e3o do dano \u00e0 fase de liquida\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a revela evidente <b>invers\u00e3o do \u00f4nus probat\u00f3rio<\/b>, uma vez que competia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico demonstrar, na fase de conhecimento, a exist\u00eancia do preju\u00edzo concreto ao er\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assente que, <b>ap\u00f3s a reforma da LIA, n\u00e3o se admite mais a condena\u00e7\u00e3o por improbidade administrativa sem a comprova\u00e7\u00e3o de todos os elementos objetivos e subjetivos do tipo<\/b>, sob pena de viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da legalidade estrita em mat\u00e9ria sancionat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, diante da aus\u00eancia de demonstra\u00e7\u00e3o do dolo espec\u00edfico dos agentes e da inexist\u00eancia de preju\u00edzo comprovado aos cofres p\u00fablicos, n\u00e3o se configuram os elementos essenciais para o enquadramento da conduta nos arts. 10 ou 11 da Lei de Improbidade Administrativa, conforme os par\u00e2metros vigentes ap\u00f3s a Lei n. 14.230\/2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>RESUMO<\/b>: A mera intermedia\u00e7\u00e3o na contrata\u00e7\u00e3o de show art\u00edstico sem licita\u00e7\u00e3o, com base na inexigibilidade prevista no art. 25, III, da Lei 8.666\/1993, n\u00e3o configura improbidade administrativa na aus\u00eancia de prova de superfaturamento ou benef\u00edcio indevido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REsp 2.029.719-RJ, Rel. Ministro Marco Aur\u00e9lio Bellizze, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 5\/8\/2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aus\u00eancia de dolo espec\u00edfico e de dano efetivo ao er\u00e1rio como causas excludentes da responsabilidade por ato de improbidade administrativa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1850,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[81,279,525],"class_list":["post-1849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pilulas-juridicas","tag-direito-administrativo","tag-improbidade-administrativa","tag-show-artistico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1849"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1849\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1852,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1849\/revisions\/1852"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}