{"id":1461,"date":"2025-04-01T09:45:55","date_gmt":"2025-04-01T12:45:55","guid":{"rendered":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1461"},"modified":"2025-04-01T09:45:55","modified_gmt":"2025-04-01T12:45:55","slug":"a-inadmissibilidade-da-sancao-ao-menor-incapaz-em-razao-de-conduta-da-genitora-na-utilizacao-de-verba-publica-destinada-a-tratamento-medico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1461","title":{"rendered":"A inadmissibilidade da san\u00e7\u00e3o ao menor incapaz em raz\u00e3o de conduta da genitora na utiliza\u00e7\u00e3o de verba p\u00fablica destinada a tratamento m\u00e9dico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A genitora de menor <b>absolutamente incapaz<\/b> realizou o levantamento de valores disponibilizados pelo Estado, por for\u00e7a de decis\u00e3o judicial, destinados \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de <b>medicamentos espec\u00edficos<\/b> para o tratamento de sa\u00fade da crian\u00e7a. Entretanto, diante da superveni\u00eancia de necessidade emergencial, optou por <b>adquirir outros f\u00e1rmacos<\/b>, igualmente voltados \u00e0 terapia do menor, por\u00e9m <i>diversos<\/i> daqueles expressamente previstos na ordem judicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Tribunal de origem, ao reconhecer o <b><i>desvio de finalidade<\/i><\/b> na destina\u00e7\u00e3o da verba p\u00fablica, entendeu configurada a irregularidade no uso dos recursos, determinando, como medida compensat\u00f3ria, a <b>suspens\u00e3o do fornecimento do medicamento<\/b> originalmente concedido pelo per\u00edodo de trinta dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o foi correta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>N\u00c3O<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, cumpre destacar que o C\u00f3digo Civil de 2002, em seu art. 932, I, disp\u00f5e expressamente que os pais s\u00e3o respons\u00e1veis pelos atos praticados por seus filhos menores e incapazes. Isso significa que, em regra, a responsabilidade civil recai sobre os representantes legais do incapaz, e n\u00e3o sobre ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o entendimento tem evolu\u00eddo no sentido de reconhecer que, em casos excepcionais, o patrim\u00f4nio do menor pode responder de forma <b>subsidi\u00e1ria<\/b>, <b>condicionada<\/b> e <b>mitigada<\/b> por atos praticados por terceiros (inclusive seus representantes), <b>desde que<\/b>:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li aria-level=\"1\">os respons\u00e1veis n\u00e3o tenham condi\u00e7\u00f5es de arcar com a repara\u00e7\u00e3o do dano;<\/li>\n<li aria-level=\"1\">e que a indeniza\u00e7\u00e3o <b>n\u00e3o comprometa a subsist\u00eancia<\/b> do pr\u00f3prio incapaz ou de seus dependentes.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse entendimento tem por objetivo preservar o patrim\u00f4nio m\u00ednimo do incapaz, conforme os princ\u00edpios da dignidade da pessoa humana e da prote\u00e7\u00e3o integral da crian\u00e7a e do adolescente (CF, art. 1\u00ba, III; art. 227; ECA, art. 3\u00ba).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, \u00e9 necess\u00e1rio observar que n\u00e3o restou suficientemente demonstrada a exist\u00eancia de <b>m\u00e1-f\u00e9 ou desvio doloso<\/b> na conduta da genitora. A verba p\u00fablica, conquanto aplicada em medicamentos distintos dos autorizados, foi direcionada ao <b>tratamento<\/b> da <b>mesma crian\u00e7a<\/b>, que havia passado por cirurgia e necessitava de cuidados emergenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto, invoca-se o <b>art. 188, I, do C\u00f3digo Civil<\/b>, segundo o qual <b>n\u00e3o constituem atos il\u00edcitos os praticados no exerc\u00edcio regular de um direito reconhecido<\/b>. \u00c9 razo\u00e1vel sustentar, portanto, que a conduta da genitora, embora eventualmente irregular sob o aspecto administrativo, n\u00e3o caracterizou ilicitude material, tampouco justificaria san\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por seu turno, a determina\u00e7\u00e3o de <b>suspender o fornecimento de medicamentos<\/b> ao menor como forma de \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d ao Estado ofende diretamente o <b><i>princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana<\/i><\/b>, al\u00e9m de representar viola\u00e7\u00e3o ao <b>direito fundamental \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 vida<\/b>, ambos garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal (art. 6\u00ba e art. 196).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A medida imposta configura, ademais, <b>pena de car\u00e1ter cruel<\/b>, vedada pelo <b>art. 5\u00ba, XLVII, \u201ce\u201d, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/b>, especialmente quando se observa que a san\u00e7\u00e3o recai sobre pessoa absolutamente incapaz, que n\u00e3o teve qualquer participa\u00e7\u00e3o no ato reputado il\u00edcito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob essa \u00f3tica, o fornecimento de medicamentos n\u00e3o pode ser utilizado como instrumento punitivo, tampouco como forma de coer\u00e7\u00e3o indireta, sob pena de afronta a princ\u00edpios basilares do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, \u00e9 importante compreender que o sistema jur\u00eddico brasileiro n\u00e3o admite a responsabiliza\u00e7\u00e3o do menor absolutamente incapaz por atos que n\u00e3o lhe s\u00e3o imput\u00e1veis, especialmente quando tal responsabiliza\u00e7\u00e3o se materializa em preju\u00edzo direto \u00e0 sua sa\u00fade ou integridade f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o materializa a <b>efetividade dos direitos fundamentais<\/b>, a <b>prote\u00e7\u00e3o integral da crian\u00e7a<\/b> e a <b>reserva do poss\u00edvel em sua dimens\u00e3o constitucional<\/b>, vedando medidas que atentem contra o m\u00ednimo existencial e a dignidade do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz do exposto, revela-se indevida a imposi\u00e7\u00e3o de medida punitiva que afete diretamente o menor absolutamente incapaz, sobretudo quando o suposto il\u00edcito imputado \u00e0 <b>genitora n\u00e3o se reveste de dolo nem de finalidade desviada<\/b>, tampouco implica enriquecimento indevido. A utiliza\u00e7\u00e3o da verba p\u00fablica, ainda que diversa da autoriza\u00e7\u00e3o judicial original, destinou-se, inequivocamente, \u00e0 <b>prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade do pr\u00f3prio benefici\u00e1rio<\/b>, circunst\u00e2ncia que afasta qualquer responsabilidade objetiva do infante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer cen\u00e1rio, a suspens\u00e3o de fornecimento de medicamento essencial representa afronta direta ao ordenamento jur\u00eddico p\u00e1trio e n\u00e3o se coaduna com o sistema constitucional de garantias fundamentais, devendo ser afastada pelo Poder Judici\u00e1rio em nome da preserva\u00e7\u00e3o da vida, da sa\u00fade e da dignidade da pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>RESUMO<\/b>: Se a genitora levantou do Estado valores em dinheiro para aquisi\u00e7\u00e3o de medicamentos em favor de seu filho menor incapaz e adquiriu outros rem\u00e9dios, em car\u00e1ter de urg\u00eancia, destinados \u00e0 mesma crian\u00e7a, mostra-se desarrazoada a interrup\u00e7\u00e3o do fornecimento do medicamento ao doente como meio sancionat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Processo em segredo de justi\u00e7a, Rel. Ministro Afr\u00e2nio Vilela, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 18\/3\/2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica: A genitora de menor absolutamente incapaz realizou o levantamento de valores disponibilizados pelo Estado, por for\u00e7a de decis\u00e3o judicial, destinados \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de medicamentos espec\u00edficos para o tratamento de sa\u00fade da crian\u00e7a. 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