{"id":1325,"date":"2025-01-10T08:18:43","date_gmt":"2025-01-10T11:18:43","guid":{"rendered":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1325"},"modified":"2025-01-06T10:35:12","modified_gmt":"2025-01-06T13:35:12","slug":"desapropriacoes-quilombolas-e-a-inaplicabilidade-do-prazo-de-caducidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1325","title":{"rendered":"Desapropria\u00e7\u00f5es quilombolas e a inaplicabilidade do prazo de caducidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ao julgar o REsp 2.000.449-MT, o STJ analisou a controv\u00e9rsia sobre a aplicabilidade do prazo de caducidade de 2 anos, previsto no art. 3\u00ba da Lei n\u00ba 4.132\/1962, \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 titula\u00e7\u00e3o de terras \u00e0s comunidades remanescentes de quilombos. A quest\u00e3o central \u00e9 se essa limita\u00e7\u00e3o temporal, aplicada \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es comuns, pode restringir os processos voltados \u00e0 efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos das comunidades quilombolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Constitui\u00e7\u00e3o Federal, no art. 68 do ADCT, assegura \u00e0s comunidades quilombolas a posse e a propriedade das terras que tradicionalmente ocupam, em raz\u00e3o de seus v\u00ednculos hist\u00f3ricos e culturais com o territ\u00f3rio. Al\u00e9m disso, o art. 216, \u00a7 1\u00ba, da Constitui\u00e7\u00e3o protege o patrim\u00f4nio cultural, refor\u00e7ando a preserva\u00e7\u00e3o da identidade cultural das comunidades quilombolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa prote\u00e7\u00e3o constitucional confere \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es quilombolas um car\u00e1ter diferenciado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es comuns, reguladas pelo Decreto-Lei n\u00ba 3.365\/1941 (utilidade p\u00fablica) ou pela Lei n\u00ba 4.132\/1962 (interesse social). O objetivo dessas desapropria\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 meramente econ\u00f4mico ou administrativo, mas sim a <b>repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a promo\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O prazo de caducidade nas desapropria\u00e7\u00f5es comuns tem como objetivo evitar a perpetua\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de instabilidade jur\u00eddica, impedindo que a propriedade fique sujeita ao poder expropriat\u00f3rio de forma indefinida. Contudo, <b>no contexto das comunidades quilombolas, essa l\u00f3gica n\u00e3o se aplica<\/b>. Aqui, o foco \u00e9 a efetiva\u00e7\u00e3o de direitos constitucionais fundamentais, j\u00e1 reconhecidos pelo Estado por meio de processos administrativos pr\u00e9vios de identifica\u00e7\u00e3o, reconhecimento e delimita\u00e7\u00e3o das terras ocupadas tradicionalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Decreto n\u00ba 4.887\/2003, que regulamenta a titula\u00e7\u00e3o de terras quilombolas, n\u00e3o estabelece prazo de caducidade para os decretos expropriat\u00f3rios, refletindo uma escolha deliberada do legislador para garantir a prote\u00e7\u00e3o desses direitos. A imposi\u00e7\u00e3o de prazos nesse contexto comprometeria a efic\u00e1cia do direito constitucional das comunidades quilombolas \u00e0 terra e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desapropria\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 titula\u00e7\u00e3o de terras quilombolas n\u00e3o \u00e9 um instrumento para o reconhecimento de direitos, mas sim para sua formaliza\u00e7\u00e3o e efetiva\u00e7\u00e3o. Trata-se da \u00faltima etapa de um processo que j\u00e1 reconheceu administrativamente a ocupa\u00e7\u00e3o tradicional e a titularidade do direito das comunidades quilombolas sobre o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tal, <b>a aplica\u00e7\u00e3o do prazo de caducidade seria incompat\u00edvel com a natureza especial desse processo<\/b>. A caducidade, prevista no art. 3\u00ba da Lei n\u00ba 4.132\/1962, destina-se a regular situa\u00e7\u00f5es patrimoniais ordin\u00e1rias, n\u00e3o alcan\u00e7ando o regime jur\u00eddico especial das desapropria\u00e7\u00f5es quilombolas, que t\u00eam fundamento constitucional e car\u00e1ter de pol\u00edtica afirmativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, o STJ concluiu que o<b> prazo de caducidade de 2 anos, previsto na Lei n\u00ba 4.132\/1962, n\u00e3o se aplica \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es para titula\u00e7\u00e3o de terras \u00e0s comunidades quilombolas<\/b>. Esse entendimento reflete a necessidade de respeitar a especialidade normativa e a finalidade reparat\u00f3ria dessas desapropria\u00e7\u00f5es, alinhando-se aos princ\u00edpios constitucionais de prote\u00e7\u00e3o ao patrim\u00f4nio cultural e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, o tratamento diferenciado \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es quilombolas \u00e9 juridicamente justificado e assegura a plena realiza\u00e7\u00e3o do direito dessas comunidades \u00e0 terra, sem comprometer a integridade de seu modo de vida e identidade cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>RESUMO<\/b>: A desapropria\u00e7\u00e3o para comunidades quilombolas possui car\u00e1ter reparat\u00f3rio e de promo\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais, n\u00e3o se aplicando a esse procedimento os prazos de caducidade das desapropria\u00e7\u00f5es comuns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REsp 2.000.449-MT, Rel. Ministro Paulo S\u00e9rgio Domingues, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 26\/11\/2024, DJe 9\/12\/2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao julgar o REsp 2.000.449-MT, o STJ analisou a controv\u00e9rsia sobre a aplicabilidade do prazo de caducidade de 2 anos, previsto no art. 3\u00ba da Lei n\u00ba 4.132\/1962, \u00e0s desapropria\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 titula\u00e7\u00e3o de terras \u00e0s comunidades remanescentes de quilombos. 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