{"id":1241,"date":"2024-12-03T09:32:27","date_gmt":"2024-12-03T12:32:27","guid":{"rendered":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1241"},"modified":"2024-12-03T09:32:27","modified_gmt":"2024-12-03T12:32:27","slug":"compatibilidade-entre-a-agravante-generica-e-a-majorante-especifica-nos-crimes-contra-a-dignidade-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/?p=1241","title":{"rendered":"Compatibilidade entre a agravante gen\u00e9rica e a majorante espec\u00edfica nos crimes contra a dignidade sexual"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A causa de aumento prevista no art. 226, II, do C\u00f3digo Penal estabelece que, nos <b>crimes contra a dignidade sexual<\/b>, as penas ser\u00e3o <i>aumentadas<\/i> pela metade caso o agente possua <b>autoridade sobre a v\u00edtima<\/b>. Tal previs\u00e3o reflete a maior gravidade da conduta praticada por quem det\u00e9m o <i>dever de prote\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia<\/i> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00edtima, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o de autoridade facilita a pr\u00e1tica do delito e dificulta sua descoberta. Por outro lado, a agravante gen\u00e9rica do art. 61, II, &#8220;f&#8221;, do C\u00f3digo Penal prev\u00ea o aumento da pena em situa\u00e7\u00f5es em que o crime \u00e9 cometido com <b>abuso de autoridade<\/b>, preval\u00eancia de <b>rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas<\/b>, de <b><i>coabita\u00e7\u00e3o<\/i><\/b> ou de <b><i>hospitalidade<\/i><\/b>, ou ainda com <b>viol\u00eancia contra a mulher<\/b>, conforme previsto em lei espec\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A an\u00e1lise dos dois dispositivos revela que a \u00fanica <i>interse\u00e7\u00e3o direta<\/i> entre eles \u00e9 a <b>rela\u00e7\u00e3o de autoridade<\/b>. A majorante espec\u00edfica do art. 226, II, prev\u00ea de forma casu\u00edstica algumas situa\u00e7\u00f5es em que o agente exerce autoridade sobre a v\u00edtima e, tamb\u00e9m, uma cl\u00e1usula gen\u00e9rica que abarca outros casos de autoridade n\u00e3o especificados. J\u00e1 a agravante gen\u00e9rica do art. 61, II, &#8220;f&#8221;, estabelece que o abuso de autoridade, em qualquer circunst\u00e2ncia, agrava a pena, o que pode incluir <b>casos n\u00e3o abrangidos pela causa de aumento espec\u00edfica<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, os demais elementos previstos no art. 61, II, &#8220;f&#8221; \u2014 como preval\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, coabita\u00e7\u00e3o ou hospitalidade, ou viol\u00eancia contra a mulher \u2014, n\u00e3o necessariamente pressup\u00f5em uma rela\u00e7\u00e3o de autoridade. Por outro lado, o agente pode ter autoridade sobre a v\u00edtima sem que essas situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas estejam presentes. Isso demonstra que, embora possam coexistir, os dispositivos tratam de circunst\u00e2ncias distintas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, quando o crime envolve tanto a <b>autoridade do agente<\/b> sobre a v\u00edtima quanto <b>outra situa\u00e7\u00e3o prevista no art. 61, II, &#8220;f&#8221;<\/b> \u2014 como rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas ou viol\u00eancia contra a mulher \u2014, <b>\u00e9 poss\u00edvel a aplica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da agravante gen\u00e9rica e da causa de aumento<\/b>. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do <b><i>ne bis in idem<\/i><\/b>, pois cada dispositivo considera circunst\u00e2ncias diferentes para o aumento da pena. Entretanto, <b>quando o \u00fanico fator presente \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de autoridade, deve-se aplicar exclusivamente a causa de aumento do art. 226, II<\/b>, em raz\u00e3o de sua <b><i>especialidade<\/i><\/b> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 agravante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras, a <b>aplica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea<\/b> dos dois dispositivos \u00e9 v\u00e1lida quando fundamentada em <b>circunst\u00e2ncias distintas<\/b>, como preval\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es de coabita\u00e7\u00e3o e a condi\u00e7\u00e3o de autoridade derivada do v\u00ednculo parental. O STJ destacou que a coabita\u00e7\u00e3o n\u00e3o pressup\u00f5e ascend\u00eancia, assim como a ascend\u00eancia n\u00e3o exige coabita\u00e7\u00e3o, o que evidencia que ambas as circunst\u00e2ncias podem coexistir sem configurar dupla valora\u00e7\u00e3o (HC 336.120\/PR, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 25\/4\/2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso concreto, o Tribunal <i>a quo<\/i> afastou a aplica\u00e7\u00e3o da agravante gen\u00e9rica ao considerar que sua incid\u00eancia conjunta com a causa de aumento espec\u00edfica configuraria <i>bis in idem<\/i>, por basearem-se na mesma circunst\u00e2ncia. Contudo, o STJ esclareceu que a preval\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas n\u00e3o se confunde com a rela\u00e7\u00e3o de autoridade (ascend\u00eancia) do agente sobre a v\u00edtima. Assim, a aplica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea dos dispositivos n\u00e3o configura bis in idem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>TESE<\/b>: Nos crimes contra a dignidade sexual, n\u00e3o configura <i>bis in idem<\/i> a aplica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da agravante gen\u00e9rica do art. 61, II, f, e da causa de aumento do art. 226, II, ambos do C\u00f3digo Penal, salvo quando presente apenas a rela\u00e7\u00e3o de autoridade, caso em que se aplica exclusivamente a majorante espec\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REsp 2.038.833-MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 13\/11\/2024, DJe 18\/11\/2024. (Tema 1215).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A causa de aumento prevista no art. 226, II, do C\u00f3digo Penal estabelece que, nos crimes contra a dignidade sexual, as penas ser\u00e3o aumentadas pela metade caso o agente possua autoridade sobre a v\u00edtima. Tal previs\u00e3o reflete a maior gravidade da conduta praticada por quem det\u00e9m o dever de prote\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1243,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[231,287,176,326],"class_list":["post-1241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-crime","tag-dignidade-sexual","tag-direito-penal","tag-violencia-contra-mulher"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1241"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1244,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1241\/revisions\/1244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1243"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gabaritojuridico.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}